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Muita gente ouve falar em livros retirados da Bíblia e fica com uma dúvida sincera: será que a Bíblia evangélica está incompleta? Será que os protestantes deixaram de fora livros que deveriam estar ali? Será que a Bíblia católica preservou algo que os evangélicos perderam?

Essas perguntas mexem com algo muito importante: nossa confiança na Palavra de Deus. Saber apenas que a Bíblia católica tem mais livros e a Bíblia evangélica tem menos não resolve a inquietação. A dúvida continua sendo: afinal, em qual Bíblia posso confiar?

Neste post, uso “Bíblia evangélica” porque é a expressão mais conhecida, embora historicamente o termo mais preciso seja Bíblia protestante. A principal diferença entre ela e a Bíblia católica está no Antigo Testamento. A Igreja Católica recebe alguns livros que chama de deuterocanônicos, enquanto a tradição protestante segue o cânon hebraico.

Para entender por que essa diferença existe, precisamos olhar para a história do cânon, para a Septuaginta e para esses livros que aparecem em algumas Bíblias e não em outras. A história é mais interessante — e um pouco mais complexa — do que simplesmente dizer que alguém “tirou livros da Bíblia”.

Livros foram retirados da Bíblia?

A expressão “livros retirados da Bíblia” é muito popular, mas pode passar uma ideia errada: como se existisse uma Bíblia completa e fechada, igual para todos, e em algum momento alguém tivesse simplesmente arrancado alguns livros dela.

A história do cânon não aconteceu dessa maneira.

A Bíblia protestante possui 39 livros no Antigo Testamento e 27 no Novo Testamento. A Bíblia católica possui os mesmos 27 livros no Novo Testamento, mas inclui também no Antigo Testamento Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico ou Siraque, Baruque, 1 e 2 Macabeus e acréscimos gregos aos livros de Ester e Daniel.

O Catecismo da Igreja Católica reconhece esses escritos dentro de seu cânon do Antigo Testamento. A tradição protestante, por outro lado, segue o conjunto de livros preservado no cânon hebraico.

Portanto, a diferença não está nos Evangelhos, em Atos, nas cartas apostólicas ou no Apocalipse. Ela está na extensão do Antigo Testamento.

Qual é a diferença entre a Bíblia católica e a evangélica?

A Bíblia católica e a Bíblia evangélica possuem o mesmo Novo Testamento. Ambas recebem Mateus, Marcos, Lucas e João, Atos, as cartas apostólicas e Apocalipse.

A diferença aparece no Antigo Testamento.

A Bíblia protestante segue os livros preservados no cânon hebraico. A Bíblia católica inclui também os chamados deuterocanônicos.

A questão, portanto, vai além de contar quantos livros existem em cada Bíblia. A pergunta realmente importante é: esses livros adicionais devem ser recebidos como Palavra de Deus e usados para estabelecer doutrina?

A resposta da tradição protestante é não. Esses escritos podem ser estudados e possuem valor histórico e religioso, mas não são recebidos como regra final de fé e prática.

Por que a Bíblia católica tem mais livros?

A Bíblia católica tem mais livros porque a Igreja Católica reconhece como canônicos alguns escritos que a tradição protestante não recebe como Escritura normativa.

E é justamente aqui que entra a Septuaginta.

A Septuaginta, também conhecida como LXX, é o nome dado ao conjunto de antigas traduções gregas das Escrituras hebraicas. Ela surgiu num contexto em que muitos judeus viviam fora de Israel e utilizavam o grego em seu cotidiano.

A tradução começou com a Torá, os cinco livros de Moisés, provavelmente em Alexandria, no Egito, no século III a.C. Com o tempo, outros livros também circularam em grego.

Mais tarde, manuscritos cristãos gregos passaram a reunir também escritos que não pertenciam ao cânon hebraico. É nesse ambiente que encontramos os livros que a Igreja Católica posteriormente receberia como deuterocanônicos.

A Igreja Católica confirmou oficialmente esses livros no Concílio de Trento, em 1546. A tradição protestante seguiu outro caminho e não os recebeu como regra final de fé e prática.

Quais são os livros apócrifos ou deuterocanônicos?

Os principais livros presentes na Bíblia católica e ausentes da Bíblia protestante são:

  • Tobias;
  • Judite;
  • Sabedoria;
  • Eclesiástico, também chamado Siraque;
  • Baruque;
  • 1 Macabeus;
  • 2 Macabeus.

Além desses livros, a tradição católica também inclui acréscimos gregos a Ester e Daniel.

Esses escritos são chamados de deuterocanônicos pela Igreja Católica. Muitos protestantes utilizam o termo apócrifos para se referir a eles por não reconhecê-los como parte do cânon.

Isso não significa que sejam textos sem valor. Eles ajudam muito a compreender o período entre o Antigo e o Novo Testamento e tratam de temas como perseguição, martírio, resistência judaica, esperança na ressurreição e vida piedosa.

A diferença está na autoridade atribuída a esses escritos.

O que são livros apócrifos?

A palavra “apócrifo” pode causar confusão porque, no uso comum, às vezes parece significar simplesmente “livro falso”. Não é essa a melhor maneira de entender o termo neste debate.

Na tradição protestante, ele costuma ser usado para livros antigos que possuem valor histórico ou religioso, mas que não foram recebidos como Escritura canônica.

Por isso, um protestante pode estudar Tobias, Macabeus ou Sabedoria sem precisar tratá-los como textos inspirados no mesmo nível de Isaías, Salmos, Mateus ou Romanos.

O que a Septuaginta tem a ver com essa diferença?

A Septuaginta é importante porque foi amplamente utilizada no mundo antigo e aparece por trás de muitas citações do Antigo Testamento feitas no Novo Testamento.

Como os autores do Novo Testamento escreveram em grego, era natural utilizar uma forma grega das Escrituras ao escrever para leitores que também falavam grego.

Muitas citações do Antigo Testamento no Novo Testamento se aproximam bastante da Septuaginta. Outras se aproximam mais do hebraico, e algumas aparecem em forma de paráfrase.

Isso mostra que a Septuaginta foi uma tradução extremamente importante para a Igreja primitiva. Mas existe uma diferença entre reconhecer o uso dessa tradução e concluir que todos os livros que circularam em manuscritos gregos devem automaticamente ser considerados canônicos.

O uso da Septuaginta pelos apóstolos, sozinho, não resolve a questão do cânon.

Jesus usava a Septuaginta?

Jesus não utilizava uma Bíblia encadernada como nós usamos hoje. As Escrituras circulavam em rolos.

No ambiente judaico da Judeia e da Galileia, textos hebraicos provavelmente eram utilizados nas sinagogas, com explicações em aramaico quando necessário.

Em Lucas 4, por exemplo, Jesus lê o livro de Isaías na sinagoga. Como Lucas escreveu seu Evangelho em grego, a passagem chegou até nós em forma grega e se aproxima da Septuaginta.

Isso não prova que o rolo que Jesus tinha fisicamente nas mãos fosse grego.

A maneira mais cuidadosa de dizer é que Jesus utilizava as Escrituras de Israel dentro do contexto judaico de seu tempo, enquanto a Septuaginta tinha enorme importância entre judeus e cristãos de língua grega.

Os deuterocanônicos eram considerados Escritura no tempo de Jesus?

Alguns desses livros circulavam no mundo judaico antigo e eram lidos e valorizados por determinados grupos.

Mas isso não significa que todos os judeus os reconhecessem como Escritura com a mesma autoridade da Lei, dos Profetas e dos Escritos.

Josefo, escrevendo no primeiro século, fala de vinte e dois livros considerados divinos pelos judeus e distingue esses escritos de obras posteriores. Esse testemunho não resolve sozinho toda a discussão sobre o cânon, mas é um dado importante dentro do debate.

Por isso, dizer simplesmente que “a Septuaginta tinha esses livros, então Jesus e os apóstolos consideravam todos eles Escritura” vai além daquilo que podemos afirmar com segurança.

Por que os protestantes não aceitam os deuterocanônicos como Escritura?

A tradição protestante recebe como Antigo Testamento o conjunto de livros preservados no cânon hebraico. Os deuterocanônicos podem ser estudados, mas não são utilizados como fundamento final para estabelecer doutrina.

Essa distinção se torna especialmente importante porque algumas passagens desses livros aparecem em discussões teológicas entre católicos e protestantes.

Um exemplo conhecido está em 2 Macabeus 12, que fala de uma ação realizada em favor de soldados mortos. Essa passagem aparece no debate católico sobre oração pelos mortos.

Outros livros, como Tobias e Siraque, utilizam linguagem forte a respeito de esmolas, perdão e purificação. Esses textos podem ser lidos dentro de seu contexto moral e sapiencial, mas a tradição protestante não os utiliza como base canônica para definir doutrina.

Isso também não significa que tudo nesses livros seja considerado errado. Sabedoria, Macabeus e outros escritos trazem reflexões históricas e religiosas importantes. A questão continua sendo sua autoridade como Escritura.

E o livro de Enoque?

O livro de 1 Enoque costuma aparecer nessa conversa porque Judas 14-15 traz uma citação muito próxima de 1 Enoque 1:9.

Mas Enoque não faz parte da Bíblia católica romana nem da Bíblia protestante. Ele também não é um dos livros deuterocanônicos.

Fragmentos de 1 Enoque foram encontrados entre os Manuscritos do Mar Morto, mostrando que o livro era conhecido e circulava em determinados grupos judaicos antigos.

O fato de Judas utilizar uma passagem semelhante não significa automaticamente que todo o livro de Enoque tenha sido reconhecido como Escritura. Um autor bíblico pode utilizar material conhecido por seus leitores sem, com isso, transformar toda a obra citada em parte do cânon.

Então posso confiar na Bíblia evangélica?

Sim. A Bíblia protestante não nasceu simplesmente porque alguém decidiu, muitos séculos depois, retirar alguns livros de uma Bíblia já pronta.

Ela segue o cânon hebraico do Antigo Testamento e recebe o mesmo Novo Testamento presente na Bíblia católica.

Isso não exige desprezar os deuterocanônicos. Eles podem enriquecer nosso conhecimento histórico, especialmente sobre o período entre os Testamentos.

Mas, dentro da tradição protestante, existe uma distinção entre um livro antigo útil para compreender a história e um livro recebido como Palavra de Deus para governar a fé e a doutrina da Igreja.

Por isso, a diferença entre a Bíblia católica e a protestante deve ser tratada com seriedade, sem caricaturas. Não precisamos dizer que os católicos simplesmente “acrescentaram livros”, nem que os protestantes simplesmente “arrancaram livros”. Existe uma história de formação e reconhecimento do cânon por trás dessas tradições.

Perguntas frequentes sobre livros retirados da Bíblia

Os protestantes retiraram livros da Bíblia?
A expressão simplifica demais a história. A tradição protestante recebe como Antigo Testamento o cânon hebraico e não reconhece os deuterocanônicos como Escritura normativa.

Quantos livros a Bíblia católica tem a mais?
A diferença envolve Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico ou Siraque, Baruque, 1 e 2 Macabeus e acréscimos gregos a Ester e Daniel.

O que são livros deuterocanônicos?
São livros reconhecidos como canônicos pela Igreja Católica, mas não recebidos como Escritura pela tradição protestante.

A Septuaginta continha livros que não estão na Bíblia protestante?
Manuscritos cristãos gregos ligados à tradição da Septuaginta circularam com escritos que não pertenciam ao cânon hebraico. Esse fato é importante para entender a história, mas não resolve sozinho a questão da autoridade canônica.

Jesus e os apóstolos usavam a Septuaginta?
A Septuaginta teve grande importância no mundo de língua grega e muitas citações do Novo Testamento se aproximam dela. Isso não prova, porém, que todos os livros ligados à tradição grega fossem recebidos como Escritura.

O livro de Enoque foi retirado da Bíblia?
1 Enoque não faz parte da Bíblia católica romana nem da protestante e não é um livro deuterocanônico. Judas utiliza uma passagem muito próxima de 1 Enoque, mas isso não torna automaticamente o livro inteiro canônico.

Conhecer a história do cânon pode fortalecer nossa confiança na Bíblia

Eu entendo por que esse assunto pode causar insegurança. Quando alguém diz que existem “livros retirados da Bíblia”, parece que estamos diante de uma descoberta capaz de colocar em dúvida tudo aquilo que recebemos como Palavra de Deus.

Mas estudar a história com mais cuidado produz em mim o efeito contrário.

Perceber que houve textos diferentes circulando, tradições distintas e discussões reais sobre o cânon não significa que Deus tenha perdido o controle de sua Palavra. Significa que vale a pena conhecer essa história sem medo, sem slogans e sem fugir das perguntas difíceis.

Os livros antigos podem nos ensinar muito sobre o mundo em que a Bíblia foi escrita. A Septuaginta pode nos ajudar a compreender como as Escrituras eram lidas em grego. Os deuterocanônicos podem iluminar o período entre os Testamentos. Mas nossa confiança não precisa depender de transformar todo escrito religioso antigo em Escritura.

O objetivo de estudar tudo isso continua sendo o mesmo: conhecer com mais clareza a Palavra que recebemos e nos submeter a ela.

Que Deus abençoe você! E lembre-se: leia sua Bíblia!! 🤎

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